Postado por admin em qua, 05/10/2011 - 10:29 | Atualizado em seg, 10/10/2011 - 10:03.
por Izabel Cristina Ferreira Borsoi - Professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFES.
No Caderno de Notícias, jornal da Adufes, edição no 80,[1] publiquei um pequeno artigo intitulado “A saúde docente na universidade”. Nele, apontei que os objetivos centrais das medidas adotadas pelo governo federal, a partir de 1990, para reestruturar o serviço público, são flexibilizar processos e relações de trabalho e reduzir custos. As ações que daí decorrem estão contribuindo para a construção de uma cultura universitária centrada na lógica mercantil globalizada, caracterizada por exigências de metas, qualidade e excelência produtivas, que forçam os trabalhadores a ordenar suas vidas conforme as expectativas das organizações em que trabalham.
Em se tratando dos docentes, os desdobramentos de tais medidas têm sido, entre outras coisas, a sobrecarga física e psíquica, que se expressa em modos diversos de sofrimento e adoecimento, principalmente os de ordem psicoemocional. Uma pesquisa que atualmente realizo com docentes da UFES, abordando trabalho, saúde e modo de vida, tem apresentado resultados que, de meu ponto de vista, são importantes e preocupantes.[2]
Participaram da primeira etapa 96 docentes efetivos, de 18 departamentos. São 56 homens e 40 mulheres, vinculados ou não a programas de pós-graduação. Têm idade média de 45,9 anos. Da amostra, 69,8% estão casados ou vivem em união estável e 75% têm filhos. No que diz respeito à forma de inserção no trabalho, 94,8% trabalham em regime de dedicação exclusiva. Dois terços têm doutorado e, no momento em que se deu aquela etapa da pesquisa, 65% estavam vinculados a pelo menos uma pós-graduação como professor permanente ou colaborador e 60,4% exerciam alguma função administrativa.
Neste artigo, restrinjo-me apenas a dados preliminares acerca do que os docentes informaram sobre sua situação de saúde e sua percepção de alguns aspectos do trabalho na universidade.
Dentre os participantes, 78 (81,3%) assinalaram ter procurado atendimento médico e/ou psicológico nos últimos dois anos. Além disso, 23 mulheres e 24 homens, totalizando 48,5% da amostra, dizem fazer uso frequente de medicação prescrita. Cabe sublinhar que, considerando o grupo amostral por gênero, constatamos que as mulheres que usam medicação correspondem a 57,5% das participantes da pesquisa, percentual que cai a 42,9% entre os homens (ver Figura 1). Dos que procuraram ajuda de um profissional de saúde, 27 (36%) — 17 mulheres e 10 homens — fizeram-no por agravos de ordem psicoemocional, principalmente depressão e ansiedade.
A metade dos participantes, isto é, 48 docentes (62,5% das mulheres e 41,1% dos homens), expressa queixas quanto a mal-estares e desconfortos, como cansaço, fadiga, estresse, insônia e dores no corpo (ver Figura 2), embora isso não represente, para eles, justificativa suficiente para buscar ajuda médica e/ou psicológica.
O esgotamento físico e psíquico ao final da jornada laboral foi assinalado por 27 (28,1%) de todos os participantes. Situação parecida ocorre em relação ao cansaço ao se levantarem, pela manhã, para o trabalho. Em geral, esses docentes referem buscar ajuda de profissionais de saúde.
Destaco que informações como as aqui apontadas não se restringem à UFES. Pesquisa realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), utilizando, em parte, dados da Divisão de Saúde Ocupacional da própria instituição, mostra que, em 2007, 194 docentes procuraram aquele serviço — 124 (63,9%) mulheres e 70 (36,1%) homens. Os diagnósticos prevalentes foram os transtornos mentais e comportamentais, envolvendo 20 mulheres e nove homens, seguidos de doenças do sistema nervoso, que acometeram 17 mulheres e seis homens.[3]
Apesar das diferenças quanto às abordagens metodológicas, tanto a pesquisa realizada na UFF quanto a que estou desenvolvendo na UFES apontam na mesma direção: a predominância de determinados modos de adoecimento ou de sofrimento, relacionados, em sua maioria, a queixas psicoemocionais, e o segmento feminino revelando-se como mais suscetível a tais problemas do que o segmento masculino.
Independentemente de declarar ou não alguma queixa referente à saúde, a maior parte dos integrantes da amostra da UFES associa sobretudo a aspectos da situação de trabalho os prejuízos que sente na vida pessoal ou na saúde. Embora a carga de trabalho apareça como similar entre docentes que atuam apenas na graduação e aqueles que atuam também na pós-graduação, são os últimos que enfatizam a forte pressão por produtividade — aqui, um elemento importante para elevar o estado de tensão, gerador de mal-estares e até de adoecimento. Como a maioria dos participantes mencionou encontrar-se em alguma função administrativa e quase todos informaram estar envolvidos com pesquisa acadêmica, uma das queixas mais frequentes é o excesso de atividades burocráticas, que eles consideram incompatíveis com o trabalho docente. Isso é caracterizado como extremamente oneroso para o docente, que, amiúde, acaba tornando-se uma espécie “secretário” de si mesmo. Para alguns, é uma demanda que “emperra a produção acadêmica”.
De forma majoritária, os docentes qualificaram suas condições de trabalho como “precárias”, “péssimas”, “insatisfatórias”, “ruins” etc., totalizando 97 referências negativas. Para muitos, isso é gerador de desestímulo, insatisfação, desânimo, frustração. Em contraste, temos 40 adjetivações positivas ou neutras, tais como “boas”, “satisfatórias”, “razoáveis”, “adequadas”, “modestas” etc.
Para finalizar, cabe observar que, apesar do quadro esboçado aqui, todos os participantes estavam exercendo suas atividades acadêmicas regularmente, apesar de alguns terem assinalado estar trabalhando “no limite”. Isso significa que muitos docentes continuam atuando sem condições físicas e/ou psíquicas adequadas para tanto. São docentes que põem acima de suas necessidades e condições pessoais o compromisso com seus alunos, seus colegas, sua produção científica — enfim, sua instituição.
[1] Caderno de Notícias – Jornal da Adufes – ed. no 80, mai./jun./jul. 2010.
[2] A pesquisa “Precarização do trabalho e produtividade: implicações no modo de vida e na saúde de docentes de ensino superior” foi iniciada, efetivamente, no segundo período letivo de 2009. Sua primeira etapa caracterizou-se por um levantamento de informações através de um protocolo de perguntas, disponível em versões impressa e on line. Esta última permaneceu na site da UFES até o final de abril de 2010. A sistematização dos dados do protocolo tem a colaboração do cientista social Flavilio Silva Pereira. A segunda etapa, ainda em andamento, consiste em entrevistas em profundidade.
[3] EMILIANO, Norma. Sociabilidades e adoecimento nas universidades: a saúde do trabalhador na Universidade Federal Fluminense. 2008. 147 f. Dissertação (Mestrado em Política Social) — Programa de Estudos Pós-Graduados em Política Social, Universidade Federal Fluminense, Niterói.

