Postado por admin em qua, 05/10/2011 - 10:22 | Atualizado em qua, 05/10/2011 - 10:30.
por Izabel Cristina Ferreira Borsoi - professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFES
Discutir a saúde docente em um espaço tão restrito, além de ser um grande desafio, traz o risco de excessiva simplificação. Cabe-me, pois, apenas apontar alguns elementos que possibilitem uma reflexão sobre o tema.
Sabemos que, desde a década de 1990, o governo federal vem criando medidas que visam a redefinir o aparelho estatal, principalmente na área administrativa, âmbito no qual se situam os projetos de reforma da educação superior. As idéias centrais são flexibilizar processos e relações de trabalho e reduzir custos. Ações adotadas nesse período ofereceram elementos que contribuem para o surgimento de uma cultura universitária centrada na lógica mercantil, que, entre outras coisas, tende a transformar as universidades públicas federais em prestadoras de serviços para o mercado.[1] Assim, a reestruturação universitária integra um conjunto de transformações que vem ocorrendo no mundo do trabalho, em âmbito global, desde a década de 1970, e cujos desdobramentos têm sido os mais amplos e diversos. Nesse processo, incluem-se a precarização do trabalho e as crescentes exigências de metas, qualidade e excelência produtivas, que forçam os trabalhadores a ordenar suas vidas conforme as expectativas das organizações em que trabalham.
Os desdobramentos da sobrecarga física e psíquica, oriundos desse redimensionamento da vida no trabalho, expressam-se em modos de adoecimento e sofrimento como a depressão, os transtornos psicossomáticos, o burnout[2] – problemas fortemente relevantes nas últimas décadas.
No meio universitário, as metas de produtividade surgem como medida importante de avaliação de desempenho, tanto dos próprios docentes, individualmente, como dos programas de pós-graduação e das instituições às quais se vinculam. Ressalte-se que, além de não criar condições satisfatórias de trabalho nas universidades públicas nem repor o quadro de docentes efetivos, o novo contexto instalou entre estes um clima de competição, envolvendo financiamentos de projetos de pesquisas, bolsas de produtividade e capacitação etc., recursos que estimulam os profissionais a buscar, sobretudo, destaque acadêmico para si, suas equipes e seus trabalhos.
Nesse clima, e tal como ocorre nas organizações privadas, os docentes passaram a ser responsabilizados pelo sucesso ou pelo fracasso de “suas” instituições, sendo instados a buscar o “ideal de excelência”, definido em instâncias governamentais, sem que se questionem suas condições de trabalho, seus salários, sua saúde e seu modo de viver.
É isto que parece estar na base da relação entre trabalho docente e modos de sofrimento, como o burnout ou “síndrome da desistência” – um fenômeno que se caracteriza por situações em que o “indivíduo se encontra, de certa forma, preso em uma espiral infernal, obrigado a correr cada vez mais depressa em um contexto onde tudo muda tão rapidamente que não resta nada mais estável a que se agarrar para retomar o fôlego.”[3]
[1] Conforme SILVA Júnior, João dos R. Pragmatismo e populismo na educação superior nos governos FHC e Lula. São Paulo: Xamã, 2005.
[2] Quadro de sofrimento que acomete trabalhadores envolvidos, fundamentalmente, no cuidado ou no contato direto e excessivo com pessoas. Tem como manifestações diretas a fadiga e a incapacidade de reagir diante de exigências constantes no âmbito do trabalho.
[3] AUBERT, Nicole. A neurose profissional. In: CHANLAT, Jean-François (Coord.). O indivíduo na organização. São Paulo: Atlas, 1993, p. 163-193 (Dimensões Esquecidas, 2).

